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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Um “causo” que me contaram ...

           Foram dias difíceis para ela aqueles de há mais de quarenta anos. A anemia profunda, o cansaço e o abatimento lhe levariam a uma inevitável internação. Espalhou os filhos, seis ao todo, todos de partos difíceis, pelas casas dos parentes, e estava só em casa naquela manhã, se arrastando como podia pelos cantos, deixando as coisas no jeito à espera do marido que a levaria para dar entrada no hospital e, enfim, descobrir sobre que mal lhe acometia para aquela hemorragia de dias.

Foi quando recebeu uma visita inesperada de um estranho andarilho: barbas compridas e brancas e cabelos idem; roupas de um algodão cru e limpo apesar de surrado. Ao abrir-lhe a porta, esse lhe cumprimentou com um bom dia, simplesmente, e lhe perguntou com uma voz confortante: “Está doentinha, não é, minha filha?” Tamanha era a paz e a segurança que esse estranho irradiava que ela não teve medo algum de deixar-lhe entrar e sentar-se, respondendo-lhe com a mesma simplicidade: - “Sim, estou!”
Você deverá fazer o seguinte, começou a dizer o senhor de barba branca: um chá bem forte de canela. Tome-o todo! Daí, prepare um banho de água quente e descanse o corpo imerso nessa água. Não se preocupe comigo, faça de conta que não estou aqui, vá cuidar de você, ordenou o senhorzinho.
Assim ela fez: o chá extra-forte de canela e o banho bem quente, em seguida, na casa de banho. Cólicas profundas, como se fora dar à luz, lhe vieram e logo ela soube o porquê. O chá indicado pelo estranho mais o banho morno fizeram com que o seu organismo expulsasse um feto morto há dias -  eis a razão das hemorragias, das dores, da fraqueza ...
Contando-me o caso naquela simplicidade brejeira toda, e do alto dos seus  bem mais de setenta anos, nem viu o quão espantada eu estava e boquiaberta, perplexa. Meu, Deus, que estória! Pensava eu.
E ela continuou me contando: enterrei-o bem ali, no fundo do quintal, dentro de uma caixa de sapato. Já tava todo formado o pequeno ... Após isso, o senhor me mandou tomar outro banho morno, e tornou a dizer: Não se preocupe comigo, faça de conta que não estou aqui, vá cuidar de você! Isso me renovou as forças e me fez sentir fome que há muito não sentia. Fiz um arroz de carreteiro pois já era hora do almoço e o marido estava pra chegar. Quando chegou, você pensa que ele estranhou aquele senhor barbudo e sentado na nossa sala? Não. Engataram uma prosa boa, como se fossem velhos conhecidos. O senhorzinho lhe disse a que veio, me acudir, e que não precisava se preocupar mais comigo nem me levar a hospital algum, que eu estava curada e que podíamos pegar nossos filhos de volta da casa dos parentes. Sendo que nada dissemos a ele de filhos espalhados por casas de parentes.
Não soubemos qual o seu nome, prosseguiu ela, ou de onde veio, se tinha família, onde morava ... Nada. Nem nos veio no pensamento a ideia de perguntar, disse-me ela. Simplesmente estávamos ali com aquele estranho como se estivéssemos com um ente querido em visita colocando a prosa em dia. Ele não quis beber nem comer, nem café tomou. Depois do nosso almoço só reclamou cansaço e pediu para dormir nalgum lugar. Cochilou em cima de alguns bancos juntos e, no meio da tarde, levantou dizendo que deveria ir embora antes da chuva chegar. Eu e o marido estranhamos pois não havia sequer nuvens no Céu naquele instante. Ele insistiu e nos disse que tinha que seguir seu caminho. E assim foi. Ainda lhe ofereci uns cachos de banana, umas quitandas, perguntei se havia alguma coisa que pudéssemos fazer para lhe agradecer, mas ele não quis nada. Despediu-se e se foi.
Contados alguns minutos, não, segundos, disse-me ela, choveu tanto pras bandas desse Cerrado, uma chuva que nunca se viu antes na história dessa fazenda. Nada de só chuvisco ou chuva, chuvarada: foi uma tempestade de lavar chão e alma. Um desassossego pros bichos. Alagou represa, transbordou o córrego, destruiu roçado, arrancou telhado. Entrei em desespero, disse ela, e pedi pro marido que fosse atrás do senhorzinho porque essa chuva podia até matá-lo. 
Ele foi, mas não encontrou ninguém e chegou dizendo que a chuva choveu apenas e unicamente na roça deles – da porteira pra lá o Céu estava mais limpo que a roupa de algodão do senhorzinho que salvou a vida da tia naquele dia. "Sim, eu sentia que estava morrendo, e seria naquele dia, e ele me salvou – aquela alma boa ou anjo bom mandado por Deus me salvou", concluiu ela.
Não preciso falar aqui do tamanho do “arregalo dos meus ói” quando a tia terminou de me contar seu “causo”, né?
Pois é, milagres de fato acontecem para aqueles que acreditam neles, como se diz por aí, e coisas boas acontecem com pessoas boas e puras de coração como a tia Aurora, independentemente de credo, cor, religião. Sem entrar nesse mérito da questão, “andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar”. Aqui na roça é assim! Fim.
Tia Aurora – tia do dono da roça,
viúva do tio Zé de quem o dono da roça
 é, ou foi, sobrinho de verdade. Entendido?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Matuto Esperto

         Foi-se o tempo em que matuto era sinônimo de ignorante. Se bem que isso nunca lhe fez jus. Matuto é bicho esperto e anda desconfiado e desconversando, em tempo, a prosa que descamba pra política suja. Se lhe falta leitura, sobra sensibilidade e memória. Se anda arredio pro assunto, nem é desinteresse, não, é falta de paciência mesmo, pois acreditou até cansar de acreditar. Também não é porque vai deixar de valer seu direito de escolha "lá pelos dias 7 de outubro", não! O que ele não vai é repetir o voto de ontem, quando um certo 'caboclo' lhe bateu nas costas e lhe sorriu com a boca ainda sobrando alguns dentes e lhe disse: "Em mim ocê pode confiar!" E ele, o matuto, viu mais uma vez tempo passar parecendo desperdício de quatro anos.
 
       E se esses nós cegos lhe aparecerem em foto num bicho chamado urna eletrônica, ele nem mandará avisar - é nulo já!
 
      "Ocê tá besta, sô! Tá pensando o que? Vem aqui, toma do meu 'negrin', come do meu bolo de 'mio', promete meio mundo de fazeres em melhorias sem fim, e nenhuazinha pra cumprir e a gente dizer assim: - ao menos uma! Pensa que vai me enganar com seu carro novo, suas 'casa bonita', suas 'muié bem mascarada' e essa boca agora completamente cheia de dentes brancos? Olhe para mim - à sombra triste de um sol escaldante que a todo instante não me sorri. Tá vendo aquela estrada ali? Toma seu rumo, sai daqui!

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

o Velho da Campina

Reza a lenda, aqui na roça, que pras bandas de lá da cancela havia um velho cujo nome ninguém sabia, mas se temia ainda assim. Chamavam-no de O Louco apenas ou de O LoucoVelho da Campina. Vivia solitário desde que se foi a companheira, muito embora isso ele não admitia.

No dia em que eu amanhecer com a “avó atrás do toco”, dizia, então, O Velho da Campina, não ficará um pé de pé pra contar história. Antes eu a você a meter o machado ou a serra na mata do meu quintal, onde nasci e cresci nu e descalço correndo por e para onde o vento dissesse – vem! 

Os bichos daqui, ainda dizia o Velho da Campina, tem nome e morrem, na sua maioria, de velhos, como eu um dia e a cada dia mais perto. Minha ‘Velha’ ainda deita-se, em sua majestade, vestindo seu vestido de chita em flôres e azul sob uma rede de algodão cru armada no alpendre. Às tardes de domingo, servimo-nos, os dois, com bolo de fubá, uma xícara de café ou chá e esse “cadin” de mata cada vez menor, bem mais pra cá de onde a vista alcança. Ficamos os dois abraçados a embalar os sonhos vividos, os filhos feitos, os netos crescidos, os lugares idos... E tudo sem falar a maior parte do tempo porque de palavras não carecemos, não. Não mais ...

Mas “no dia em que eu amanhecer com a avó atrás do toco”, você pensará duas vezes antes de querer ir além da sua cancela e tocar-se pros lados da minha, pois, e pensando melhor, não serão os pés do meu quintal, esses que ainda estão de pé, que não viverão pra contar história.

Não se via o tal 'Velho' nos vizinhos de porteira nem na vila mais próxima, sequer na igreja. Vivia do que sua terra lhe dava - sua maior riqueza. Encontraram, certo dia, O Retrato (seu cavalo) ao léu. Encontraram-no depois, O Velho, dormindo, olhando pro Céu, pra não mais acordar por essas bandas.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Às flores do meu quintal

Quando cheguei nesta terra de ninguém e de todo mundo, confesso que ainda não usava saltos altos. Evidentemente, em sentido metafórico pois, sem eles, não sou eu ou, melhor, cadê eu? Pisava devagar, desconfiada e calçada em sandálias mais baixas e confortáveis – aquelas que deixam as marcas da humildade. #Sacumé – precisava ser aceita, receber mais convites, freqüentar mais as TLs... Mas desde sempre fui exigente com followers. Pensava: “se quero ser boa nisso aqui um dia, preciso me juntar aos bons”.
Humildade não é humilhação. Pra que fique claro.
Como sempre gostei de ler mais gente que livros, logo me senti em casa e aprendi o real significado de uma canção na parte que diz: ‘É preciso conhecer o sabor das massas e das maçãs’. No início, seguia mais celebridades, mas, daí, logo vi que essas não eram os arrobas mais interessantes. Se você quer mesmo se divertir e aprender a tuitar, são às massas que deve se misturar.
Coisa que aprendi aqui na roça, além de  prezar pela humildade, é a importância do bom humor - rir das próprias besteiras, admitir os erros, ‘cortar jaca’ pra quem merece por um pensamento brilhante ou outro nem tanto assim, responder a um simples bom dia com um sorriso na mão, e por aí vai... Nossa TL é uma ruela desse mundão sem porteira que é o twitter, pessoaR, e nossos followers são nossos vizinhos. E mesmo tendo alguns um gosto duvidoso, ao nosso ver, não devemos esquecer que brega é aquele que  nos acha cafona. Assim, andemos mais leves e relevemos um meio termo.
Alguns followers se destacam mais por terem sido nossos primeiros ou por mantermos contato quase que diário, como é comum com almas que se identificam. Vou citar alguns só pra exemplificar, e os cito aqui sem nenhuma ordem de grandeza e/ou sentimentos => @Noh_Olive @Lu_Martyns @DannyPimenta @mah_lisa @BREUdaTOCA @Esculachao @shebarros @taispsantana @simples_erika @Clarinha_mel @LillianKSS @souquemsou2 @Marcuslash @Multifacetadoo @hassassim @susana_efe @henriquerdyas @RealDJMynno @fabianaratisBR @irapuansobral @RadioRockPuro @lelebond07@_kisseJ @DilceiaPimentel @melneves4 @Renato_Livre @jack_jizzpump @isaacmarinho @Didi_da_Matta @tonylopes  ... E mais a uns 2.120 followers adicionados um a um, bio por bio, em pouco mais de um ano, quero agradecer demais a companhia!
Eis o Mr. K e eu!
Aqui na roça é assim – cuidamos das rosas do nosso jardim e servimos sempre um cafezinho para alimentar, aquecer e fazer frouxa a língua dos amigos que chegam pruma prosa.
E por falar em café, preciso contar que ganhei um presente há muito desejado de um dos meus vizinhos – o @Kassatti, um dos editores do Blog Café & Conversa,  a quem tive a honra e o privilégio de conhecer pessoalmente há algum tempo. Ele e o @RomoaldodeSouza, a bordo do @CafeConversa, me deram as boas vindas e me mostraram a diferença entre um bom café e o carvãozinho de todos os dias. Em visita à 'Firma',  fui recebida com um delicioso 'Bourbon Vermelho'!

Como o Kassatti é fã incondicional do Tiririca, fizemos uma homenagem aos palhaços que somos. Meninas, que sorriso o dele, hein?!
Força na peruca!
O presente? A caneca do blog, ora, ora! Fácil não foi – mais de um ano de espera, milhares de pedidos em cartas com frente e verso, leio e comento artigos do seu blog, acompanho suas novelas, dou pitaco, meto o bedelho, aponto o dedo e, finalmente, meu valor foi reconhecido.
"The winner is..."
E ninguém pode dizer que a caneca é ‘fake’ – olha as carinhas dos caras aí, ‘mermão’! O que? Num tá dando pra ver, não? Pera ae...

"Um abraço e bom café!"

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Enquanto passo um café...

Hoje ao acordar, me lembrei que tenho esse blog há um tempão no status: conjunto vazio.
Sou do tipo 'pra que me preocupar hoje se posso deixar pra fazê-lo amanhã?' Ah, o amanhã! Sempre gostei do amanhã nos convidando pra ver o sol nascer... E se pôr... Mudar de cor a cada estação...


Mas, enfim, para o primeiro post uma reflexão tímida e amena, enquanto passo um café, sobre como nossos sentimentos, humor e visão das coisas e pessoas mudam a toda hora e instante a depender ... da lua, se uma paixão se foi, se um amor já era, se ele ou ela nos decepcionou, se o chefe foi ou é "cool" (leia-se 'cu'), se falta algum pra pagar as contas ou para fazer mais... E por aí vai.
Sabia que tem até esmalte que muda de cor a depender do nosso humor? Pois é, não é mais só um anel... (Eu e minhas reticências!)

Daí, de posse da dor que incomoda, a gente tenta se desfazer dos contrapesos pelo caminho deletando arquivos, limpando lixeiras, rasgando as fotos, limpando as expressões, esvaziando as caixas... Como se possível fosse não lembrar vez por outra ou vez em sempre, num 'RT', numa 'mention' que alguém, desavisado do perigo, dá naturalmente, na canção que toca em 'flash back', num cheiro qualquer solto no ar... Com o tempo a gente aprende que nenhum dia será ausente de outro pra esquecer.

Como se sente hoje? Eu? Bom, vou tomar primeiro o meu café. Como eu digo - Tudo na vida fica melhor depois de um bom café. Até o que não tem mais pra onde.

Pra completar e comemorar a mudança de status do meu blog de 'conjunto vazio' para 'conjunto unitário', segue um vídeo do super, ultra, mega, uber gato Ashton Kutcher com sua enteada Scout - uma coffee song - My Sober.