sexta-feira, 5 de abril de 2013

Por ali, por acolá ...


Coisa que gosto de fazer quando ando pelo Cerrado, de preferência montando a minha mulinha Magia, é observar suas árvores. Costumam ser tortas, retorcidas, galhudas, crespas, de troncos sinuosos, cascas grossas. São assanhadas, de um jeito largado como quem acabou de acordar ou como quem passa o dia na lida debaixo de um Sol escaldante.
fim do dia aqui na roça
 A vegetação do Cerrado é assim, bem semelhante à da savana. Catalogadas, quase 12 mil espécies de plantas, distribuídas em cerca de 1400 gêneros e 170 famílias.
 
 



 
Paisagem que pesquei entre Pirenópolis e Brasília

Lembrando que o Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro e já se estendeu por uma área de cerca de 2 milhões de km², que por intervenção humana no ecossistema e descaso com a natureza, são hoje, dizem pesquisas recentes e eu acredito, aproximadamente só 800 mil km². Abrange os estados da região Centro-Oeste do Brasil: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal, além do sul do Pará e Maranhão, interior de Tocantins, oeste da Bahia e Minhas Gerais e norte de São Paulo.


Foto que tirei na época seca ano passado
As árvores do Cerrado tem seus caules retorcidos e raízes mais longas (que podem chegar a 10, 15 ou até 20 metros de profundidade)  justamente para que seja possível  a absorção da água  disponível nos solos do cerrado. Assim,  mesmo durante a estação seca do inverno que, na maioria da vezes, costuma ser rigorosa, as raízes dessas árvores podem alcançar camadas de solo permanentemente úmidas. Natureza é sábia, minha gente!








Pé de Pequi majestoso na entrada da roça - para mim, o retrato do Cerrado toRto e casca grossa



Não pretendo criar aqui nenhuma enciclopédia ou catálogo das espécies de árvores do Cerrado, mesmo porque num sou entendida para isso. Entendo só de ver, achar bonito, apreciar, pesquisar "quaRqué" coisa a respeito. Assim, as fotos desse post são apenas algumas das árvores que esbarro por aqui quase que diariamente, o que, por si só, já é um privilégio. Algumas fotos são do meu arquivo 'pescadas' por aqui, por acolá, outras busquei na net.
 
Angico gigante aqui da roça - madeira nobre
De acordo com o mestre em botânica e pesquisador científico Eduardo Luís Catharino, a casca amarga do Angico pode ser antidesintérica e útil na cura de úlceras. É expectorante energético e com várias aplicações medicinais.

Uma enciclopédia livre diz que o fruto do jatobá é um legume de casca bastante dura. Cada legume costuma ter duas sementes e é preenchido por um pó amarelado de forte cheiro, comestível, com grande concentração de ferro, indicado para anemias crônicas. Doces feitos com esta farinha eram muito comuns até o século XIX. Sua madeira é empregada na construção civil em vigas, caibros, ripas, acabamentos internos, etc.
Te cuida, Jatobá!
 
Jatobá - árvore com frutos duros



O buriti é considerado uma das palmeiras mais importantes. Além de ser muito ornamental, a polpa do fruto fornece óleo comestível e é consumida pelas populações locais, geralmente na forma de doces.
 Buriti - na língua indígena: árvore da vida
 
Da cagaita posso falar que é um fruto saborosíssimo, azedo e doce, de dar água na boca, rico em vitamina C e é antioxidante. Só recomendo não abusar pois é uma fruta que faz jus ao nome, principalmente se estiver quente, ao Sol. Não preciso desenhar, né? Agora, o engraçado é que suas folhas tem efeito contrário preparadas em infusão. "IncríveR"! O picolé ou sorvete é delicioso e podem ser encontrados em sorveterias com sabores do Cerrado. Recomendo.
 


Essa fruta araticum é consumida principalmente in natura, mas sua polpa serve como ingrediente para sucos e refrescos.  In natura confesso que não gosto muito. O sabor é muito forte e exótico pro meu paladar, mas conheço meio mundo de gente que adora.
 
 
Araticum
 
O que falar da mangaba? Pra começar, a palavra mangaba é de origem indígena e significa coisa boa de comer. Quando era de menor, 'causidiquê' pequena nunca fui, mainha fazia suco de mangaba. Penso que melhor não existe, não. Para controle de diabetes, colesterol e hipertensão, recomenda-se o chá da casca para ser tomado de 2 a 3 vezes ao dia: 2 colheres de sopa (da casca) para meio litro de água. Deixe cozinhar por 8 - 10 minutos a partir do momento em que se inicia a ebulição, após esse tempo, retire do fogo e deixe repousando, tampada, por 10 minutos. Coe e está pronto para o uso. Pode-se beber gelado. 
 
 
Mangaba - pense num suco 'bão'
 
 
 Pequi
Do pequi, sou suspeita pra falar - simplesmente sou capaz de roer uns 100 numa sentada só. Exageros à parte, essa fruta-símbolo do Cerrado brasileiro é figura certa na culinária goiana e mineira - aparece misturada no arroz, no frango e, dizem, até no pão de queijo. Tem sido pesquisada e deve ser colocada à venda, se já não o foram, cápsulas de óleo de pequi como um nutracêutico – produto nutricional com substâncias terapêuticas.
 
a fruta é grande, de casca verde e grossa, polpa amarela e caroço cheio de espinhos
 
I love pequi 'to much' no arroz, no frango ... Só não dá pra roer o caroço

A polpa da murici pode ser utilizada na preparação de sucos, sorvetes, vinhos e licores. Uma curiosidade: alguns pesquisadores acreditam que o murici foi a fruta encontrada na Bahia pelo padre viajante Gabriel Soares de Sousa na metade do século 16. Em sua descrição, informa que se tratava de árvore pequena e muito seca que, nascendo em terras fracas, fornecia frutas amarelas e moles, menores do que as cerejas, comestíveis e de sabor e cheiro semelhantes aos do "queijo de Alentejo".
 
Tem um 'bocadim' logo ali embaixo aqui na roça.
Murici é uma fruteira arbustiva
murici-rosa - esse é mais 'bonitim'
Outra frutinha do Cerrado que merece ser lembrada é mama-cadela (também fruto de um arbusto), também conhecida como algodão-do-campo. Indicada para bronquites, gripes, má-circulação do sangue, pele despegmentadas pelo vitiligo ou por outras manchas,úlcera gástrica,resfriados. Quando eu digo que a cura para todos os males está no Cerrado ...
Taí ela entre meus dedos de tão pequena - a amarela mama-cadela
Já falei das minhas acerolas? Pois é, tem também
 
 
O ipê é muito utilizado em projetos de paisagismo. Sabe-se que, quanto mais intenso e seco o inverno, posteriormente, na primavera, mais intensa será a quantidade das flores nos galhos.
Ipê amarelo - o mais comum deles - a cor dourada do Brasil


Ipê branco
 
Ipê roxo



Para enfeitar ainda mais o Cerradão, temos o Flamboyant - também conhecida por flor-do-paraíso. É de origem francesa, mas adaptou-se muito bem ao clima tropical.




Sucupira - madeira de lei

Agora, a sucupira - o chá de sucupira (receita e informações extraídas do site Mundo das tribos) é usado para combater a úlcera, gastrite, ácido úrico, aftas, amidalite, artrite, artrose, asma, blenorragia, dermatoses, dor espasmódica, diabete, ronquidão, sífilis, hemorragias, vermes intestinais, além disso, é anticancerígeno e combate as inflamações no útero e no ovário. E mais, é excelente para articulação.
 
Com tantos benefícios o ideal é saber preparar o chá de sucupira, veja: Você tem que lavar bem as sementes e quebrá-las, usar 4 sementes para cada litro de água. Deixe ferver por 10 minutos. Após esfriar conserve na geladeira. Você deve beber assim como você bebe água.


'MaRmenino', se isso for verdade, essa sementinha é a salvação para quase todos os males do mundo!

 

 A peroba do campo tem casca amarga e é tida na medicina popular como tônica. A madeira, dura e resistente, é usada na construção civil. Nem preciso mencionar a ameaça que sofre, né?
 


Peroba do Campo - madeira de primeira qualidade

O baru está ameaçado de extinção em função da procura pela madeira e pelo nível de desmatamento do Cerrado. Como poderia ser diferente com tanto descaso? O corte indiscriminado do baru ocorre para fabricação de carvão vegetal, instalação de cercas (moirões), indústria moveleira, construção civi, etc. É árvore de grande porte chegando a medir 25 metros de altura, podendo atingir 70 cm de diâmetro com vida útil em torno de 60 anos. Seus primeiros frutos vem depois de 6 anos. Tem crescimento rápido.  
Pé de Baru plantado no ínício do ano
castanha do baru



Quando crescer vai ficar assim
Não posso esquecer de mencionar o pau-terra  - Esse se encontra facilmente por todo o Cerrado e aqui na roça não poderia ser diferente. Tem suas cascas, entrecascas e folhas usadas como adstringente, anti-diarréico e para limpeza de úlceras externas e também contra inflamações. Abaixo, a foto de um que foi atingido por um raio essa semana e, pelo que sei, logo secará até morrer, infelizmente ...
 
Pode-se ver a ferida causada pelo raio ...
 
Aqui na roça, um velho carro de boi descansa embaixo de um pau-terra. À esquerda, mais um pé de pequi \o/
 
E por aí vai ... 
 
Pra terminar, uma musica em cima de madeira - Bem leve (Marisa Monte)
 
 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Eh, boi!

 


Ouvindo o aboio de um peão aqui na roça ao conduzir meia dúzia de ‘gado pingado’, fui pesquisar na net sobre a origem do aboio e me deparei com um artigo belíssimo de Lúcia Gaspar, Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco.


Sem mudar nem vírgula, e principalmente ela, segue seu texto na íntegra e entre aspas. E para fechar com chave de ouro, segue o vídeo “Caboclos aboiando no Nordeste e Homens de Couro” (um verdadeiro achado num garimpo) do Programa Caminhos da Roça, com reportagem de Dirceu Martins e imagens de Chico Escolano. É prosa em poesia cantada, pessoaR. Imperdível!

 
Por Lúcia Gaspar

 “O aboio típico no Nordeste do Brasil é um canto sem palavras, entoado pelos vaqueiros quando conduzem o gado para os currais ou no trabalho de guiar a boiada para a pastagem.

É um canto ou toada um tanto dolente, uma melodia lenta, bem adaptada ao andar vagaroso dos animais, finalizado sempre por uma frase de incitamento à boiada: ei boi! Boi surubim! Ei lá, boizinho!

Esteja atrás (no coice) ou adiante da boiada (na guia) o vaqueiro sugestiona o gado que segue tranquilo, ouvindo o canto.

No sertão do Brasil é sempre um canto individual, entoado livremente, sem letras, frases ou versos a não ser o incitamento final que é falado e não cantado. Os que se destacam na sua execução são apontados como bons no aboio.

Existe também o aboio cantado ou aboio em versos que são poemas de temas agropastoris, de origem moura e que chegou ao Brasil, possivelmente, através dos escravos mouros da ilha da Madeira, em Portugal, país onde existe esse tipo de aboio.

Segundo Luís da Câmara Cascudo, o vocábulo aboio é de origem brasileira, sendo levado para Portugal, uma vez que lá aboio significava pôr uma boia em alguma coisa.

O aboio não é divertimento é uma coisa séria, muito antiga e respeitada pelo homem do sertão.

Pode aboiar-se no mato, para orientar os companheiros dispersos durante as pegas de gado, sentado na porteira do curral olhando o gado entrar e guiando a boiada nas estradas. Serve para o gado solto no campo, assim como para o gado curraleiro e até para as vacas de leite, mas em menor escala, porque nesse caso não é executado por um vaqueiro que se preze e tenha vergonha nas ventas.

O escritor José de Alencar, no seu livro O sertanejo, diz do ritual do aboio: Não se distinguem palavras na canção do boiadeiro; nem ele as articula, pois fala do seu gado, com essa linguagem do coração que enternece os animais e os cativa.”
 
 
 
 

quarta-feira, 20 de março de 2013

Já não se fazem mais matutos como antigamente


  A cidade engole o campo e o “jeca” quer ser “cowboy”. Meninas de trança com vestido de chita rodado? Rapazes de calças curtas, camisa xadrez surrada e botina furada? Palavreado com sotaque brejeiro, sorriso desconfiado e desdentado? Qual o quê! Pode até ter nos cantos mais recônditos do sertão e/ou Cerrado brasileiros, mas isso hoje é mais coisa de filme antigo ou novela contada em flashback. Já era!

           O arrasta-pé ou bate-chinela ou fobó (como queira chamar) da roça perdeu espaço para os bailes e shows do arraial mais perto ou da capital. Trocaram o“burrico” e o cavalo por num sei quantas lá cilindradas e os carros de boi por carros importados há tempos. Evidentemente que isso é um luxo para poucos. Os mais "humiRdes" vão aonde tem que ir de ônibus, “furreca veia”, bicicleta, motoca, mas em cima de uma mulinha? Poucos fazem isso. Os bichos são usados mais na lida do dia a dia mesmo e só.

Quanto maior a fivela ... menor a fazenda, reza a lenda.
 Num vou dizer que isso é ruim nem que sou avessa ao conforto da cidade grande ou à modernidade ou, ainda, ao “look fashion”, muito pelo o contrário. Só não acho muito legal “neguim” fantasiado de ‘cowboy’ dos pés à cabeça o dia inteiro e todo dia. Inclusive, na maioria das vezes, esse(a) nunquinha nem montou numa égua nem apaRtou umas vacas. Mas isso é mais uma bobagem. Cada um veste o quer, o que gosta e o que pode, né "meRmo".

            - "Peão bão era o Tonho Pea Onça", se lamenta o Dono da Roça com a falta que faz hoje em dia a mão de obra especializada na lida diária com os bichos na roça.

      Mas como eu ia dizendo, foi-se o tempo em que o sertanejo era desprovido de vaidade. Hoje em dia o estilo dito sertanejo dita a moda e fala-se "country", e a calça é de grife, a camisa idem, a bota é de couro de avestruz, o cinto tem fivela invocada e cheia dos brilhantes por demais e o chapéu tem pedigree. Uia!
Se eu usasse um 'visu' desses aqui na roça, o dono da roça ia
dizer que eu tava pulaNU a ceRca
Chic pra ir num evento country. Amei!
O dono da roça ia ficar lindho nesse look, mas ia
jogar fora o "lencim", ia.
                    Para se ter uma ideia do mercado milionário por trás do estilo country, segue abaixo alguns exemplares de botas e seus respectivos preço$ num breve pesquisada que fiz na internet:
  
bota em couro de avestruz - R$ 977,00
Cintos femininos com pedrarias - R$ 720,00
Um chapéu como este, aparentemente simples,
pode custar R$ 295,00. E esse é dos baratos.

Na última festa de Barretos tinha bota à venda em couro píton cravejada de diamantes mais cara que a boiada inteira do dono da roça: R$  77 mil. É mole? Óia a foto da bicha aí:

     O mesmo empresário, Olívio Martins, que confecciona a bota cravejada de diamantes acima, usa outros materiais exóticos como couro de arráia, jacaré, pirarucu, hipopótamo e elefante, onde os preços variam de R$ 750,00 a R$ 55 mil. O comprador recebe, no ato da compra, um número de identificação do Ibama atestando a legalidade do produto.

Bota masculina em couro de arraia, detalhes em ouro
e diamante. Preço: R$ 23 mil


Bota feminina em ouro de arraia com detalhes em ouro,
rubi e diamantes. Custa R$ 55 mil
         O "homi" faz até vestido de noiva  com couro, organza de seda pura, tafetá e brilhantes cor de champanhe, e traz detalhes em ouro e flores feitas com escamas de pirarucu, um peixe amazônico, pela bagatela de R$ 600 mil. E, como ele é caridoso, tem uma versão mais em conta pros mais "humiRde" no valor de R$ 175 mil.


     Segue aí, abaixo, o criador com uma de suas criaturas - uma peça que ele fez para Mariah Carey cravejada de rubis e diamantes.  "Todo ano eu faço uma peça ousada, que eu considero ser uma joia, uma obra de arte", diz ele - Olívio martins. é ou não é um luxo para poucos.

Olívio Martins com sua peça exclusiva no valor de R$ 55 mil.
          E já que estamos falando de cowboys, quero deixar aqui a minha homenagem àqueles que considero de verdade, muito embora façam parte apenas do nosso imaginário e das telas do cinema: Jonh Wayne e Clint Eastwood (os maiores cowboys do cinema). Um destaque especial para Mazzaropi - esse é nosso e caipira de tudo. Cada um na sua, cada um no seu, cujo tipo que fizeram não deixa escapulir o que eram e serão para sempre – astros.
Um chaRme esse John Wayne
Oh, "homi" bonito pra eu achaR ... Clint Eastwoooooooood

É "feim", mas é nosso - Mazzaropi
 Vez por outra, topo com um desses matutos à moda antiga (à la Mazzaropi), mas são das antigas mesmo com suas roupas surradas, chapéus castigados, rostos queimados, mãos calejadas, roceiros de fato e de direito. Esses estão mais raros, como também seus cabelos:  grisalhos. Trazem na fala o melhor da nossa língua –  a expressão nua do ser rural.
          
           Quanto a mim, gosto de coisas bonitas: rendas, sedas, fendas, fitas, mas no dia a dia é no jeans e camisa mesmo que me acho. Os colchetes deixam feridas ... A bota tem que ter. Como eu digo e canto: "bota a bota, menina, na roça que é perigoso andar sem bota. Na roça tem cobra". 

Camiseta Riachuelo R$ 19,90; Calça Mofficer (na promoção) R$ 98,00;
Camisa xadrez Zara R$ 79,90; Botas cano curto Renner R$ 89,00;
óculos estilo Rayban Feira dos Importados Brasília R$ 39,00;
Chicote em couro do Burro no Brete R$ 59,00.


             Para encerrar, vamos rir agora com um matuto desses nocinema? Segue aí uma anedota de um paraibano de Campina Grande - Jesseir Quirino - "arquiteto por profissão, poeta por vocação, matuto por convicção". Inté!






terça-feira, 30 de outubro de 2012

Jabuticaba do jabuticabal


“A vida no campo é fruta madura. Amizade é coisa pura, é mel no coração. Gado no curral, cuscuz com leite. Café com queijo, eu gosto é de um requeijão ...” - diz parte de uma canção de Juraildes da Cruz.
"Tenho no quintal uns pé de fruta e de flor. E no meu peito por amor, plantei alguém (plantei alguém). Que vida boa ô ô ô. Que vida boa ..." diz uma outra mais conhecida  e popular nas vozes de Vítor e Léo.


E é mesmo assim. A vida no campo inspira e traz o sossego que o desassossego da cidade desconhece. Fiz um caminho inverso a tempo de descobrir e dar valor a essas coisas que antes via de contarem ou de um passeio vez por outra     na roça de um conhecido de um amigo de amigo meu.
Não é fácil gente urbana se acostumar facilmente à vida que mais parece de bicho escondido no mato, mas eu tive a sorte de ser assim – adaptável. Taí uma qualidade que num faz ‘maR’ a ninguém, ao contrário da sinceridade que, às vezes, até judiar judia (rs).

Aqui na Roça, eu diria, ainda dá pra sobreviver a um holocausto – tem sempre no mato remédio pra tudo e buraco pra tudo quanto é de lado; vaca que dá leite, umas outras que não e que dão em carne; galinha que dá ovo, outras que num dão e vão pra panela e por aí vai. Mas são os pés de frutas a minha alegria de criança crescida: abacateiros, mangueiras, bananeiras, laranjeiras, aceroleiras, jaqueiras, pitangueiras ... jabuticabeiras ... Ah, as jabuticabeiras!
O período de safra da jabuticaba, em geral, vai de agosto a novembro. Aqui na Roça as primeiras nos vieram em meados desse mês de outubro. Essas redondinhas, miudinhas e escurinhas são ricas em cálcio, fósforo e ferro, além de outras vitaminas, como as do complexo B e a C. Ainda estimulam o apetite, combatem males da pele, o reumatismo, queda dos cabelos e são ótimas para o metabolismo do nosso organismo. Quer mais? As cascas cozidas da jabuticaba auxiliam no combate à diarreia e se consumidas com a casca e o caroço, ajudam a regular o intestino porque são ricas em fibras.
Agora, são muito sensíveis, viu? Então, se for consumir assim que colhê-las, pode lavá-las, mas, caso não, não deverão ser lavadas pois azedam facilmente. Se forem à geladeira duram de dois a três dias sem perderem o viço e a firmeza.

100g de jabuticaba fornecem 43 calorias e inúmeras receitas podem ser feitas a partir dessa fruta deliciosa, tais como: licor, batida, geleia, ... Incrementam pratos salgados também, como frango e lombo ao molho de jabuticaba.

Como tenho andado mais atenta às delícias da cozinha caipira, seguem duas receitas que recomendo por ter experimentado: um molho para acompanhar carnes grelhadas e a geleia de jabuticaba.
Molho de Jabuticaba –

- 1 xíc. de chá de jabuticaba; 1 xíc. de chá de água.
Bata, coe e ferva com os seguintes ingredientes:
- 1 pedaço de canela em pau; 1 colher de sopa de vinagre de maçã; 1 colher de sopa rasa de açúcar; 1 xíc. de chá de vinho branco suave.

Deixe apurar até que fique uma calda.

Geleia de Jabuticaba – 
- 1k de jabuticaba; - açúcar.

Lave-as tirando os cabinhos e leve ao fogo numa panela sem acrescentar água. À medida que for cozinhando vá amassando com uma colher de pau ou escumadeira. Deixe cozinhar por aproximadamente 5 minutos. Passe por uma peneira amassando bem. Meça o líquido e acrescente a mesma quantidade de açúcar. Cozinhe até o ponto de geleia. Pronto!
  





Citando novamente o Juraildes - "Nóis é jeca, mas é jóia!" Abaixo segue o vídeo da música caipira "Vida no Campo", composição do mesmo Juraildes da Cruz, com a participação de Xangai.

domingo, 28 de outubro de 2012

Tudo que é bom engorda


Meu primeiro doce
 
    Na roça a vida segue doce e calma, como doces em caldas servidos gelados em tardes quentes. Há sempre doces de frutas da estação na roça. Aliás, o ar está sempre impregnado do cheiro das frutas da estação.
   
  São vários os pés de goiaba ‘bichada’ nesta época. Com paciência, conseguimos colher umas boas e bem suculentas. Eu, marinheira que sou, pesco aqui e acolá receitas de tias à beira do fogão à lenha. Dentre essas, a mais simples que, de tão simples, fiz sozinha (o que é de se admirar): doce de goiaba em calda.
 
Segue a receita e o preparo:
 
- Pegue de 15 a 20 goiabas médias maduras, descascadas, cortadas ao meio e sem sementes;
 
Essa é a única parte trabalhosa
 
- Distribua todas em uma panela de pressão e cubra-as com mais ou menos, digo, mais pra mais, três xícaras de açúcar.  (Há quem goste de acrescentar cravo ou canela em pau no cozimento para incrementar no sabor e acentuar a cor);
 

- Tampe a panela e fogo. Quando começar a "chichilar", chiar, apitar, ganir ... , conte 10 minutos. Eu disse 10 minutos – esse tempo é o suficiente para que as goiabas não se desmanchem na panela. Desligue e deixe a panela esfriar para só depois abrir. Pronto!
   
Uma delícia de doce de goiaba em calda para ser saboreado puro ou com creme de leite. Pense num trem “bão, sô”! E o melhor: engorda, viu? Eis o porquê de tão bom.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Matuto Esperto

         Foi-se o tempo em que matuto era sinônimo de ignorante. Se bem que isso nunca lhe fez jus. Matuto é bicho esperto e anda desconfiado e desconversando, em tempo, a prosa que descamba pra política suja. Se lhe falta leitura, sobra sensibilidade e memória. Se anda arredio pro assunto, nem é desinteresse, não, é falta de paciência mesmo, pois acreditou até cansar de acreditar. Também não é porque vai deixar de valer seu direito de escolha "lá pelos dias 7 de outubro", não! O que ele não vai é repetir o voto de ontem, quando um certo 'caboclo' lhe bateu nas costas e lhe sorriu com a boca ainda sobrando alguns dentes e lhe disse: "Em mim ocê pode confiar!" E ele, o matuto, viu mais uma vez tempo passar parecendo desperdício de quatro anos.
 
       E se esses nós cegos lhe aparecerem em foto num bicho chamado urna eletrônica, ele nem mandará avisar - é nulo já!
 
      "Ocê tá besta, sô! Tá pensando o que? Vem aqui, toma do meu 'negrin', come do meu bolo de 'mio', promete meio mundo de fazeres em melhorias sem fim, e nenhuazinha pra cumprir e a gente dizer assim: - ao menos uma! Pensa que vai me enganar com seu carro novo, suas 'casa bonita', suas 'muié bem mascarada' e essa boca agora completamente cheia de dentes brancos? Olhe para mim - à sombra triste de um sol escaldante que a todo instante não me sorri. Tá vendo aquela estrada ali? Toma seu rumo, sai daqui!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Pergunte às Rosas



Não entendia das meias encardidas, das roupas esfarrapadas, unhas sujas e quebradas, das caras vermelhas enrugando-se fora de hora, dos corpos suados demais e mãos calejadas pra lá de demais. Não entendia - é passado.

Calça jeans desbotada e rasgada naturalmente, camisa xadrez, chapéu, bota e cinto com fivela? Não são mais fantasias de cowboy. Era tudo como uma brincadeira, faz de conta, diversão ... Era também é passado, mas, nesse caso, até que não.

Aprendeu a gostar e a ouvir mais o Silêncio, entender dormir com as galinhas e acordar inda no escuro. Assistir em tela de todas as dimensões um verde ora novinho, ora desbotando. Curtir a conversa com os bichos em prosa muito mais interessante. Com o bananal em cachos, a laranjeira em flor, só tem inveja agora é de nada. E olha que nem Mar tem. Pergunte às Rosas, olhe para a Horta, visite o Pomar ali tão pertinhos. Vão dizer que é isso, sim.

Ali se acha e viaja em sonhos de sonhador, guarda seu coração com fé num Criador. Fez o caminho de volta. No seu mundo tem porteiras. O diacho são as pontes!